RJ: família luta há sete anos por Justiça

Engenheiro fala sobre a morte do pai, vítima de um motorista embriagado, e relembra a dor da perda e da impunidade

No dia 26 de junho de 2005, o engenheiro de sistemas Cezar Sena Moniz recebeu uma notícia que transformaria a sua vida: seu pai havia morrido vítima de um grave acidente de trânsito. Aos 69 anos, o engenheiro aposentado, Claudio Mazzei Moniz, teve seu carro atingido por um motorista de 21 anos, que apresentava sinais de embriaguez.

O carro de Claudio ficou destruído. Seu corpo, segundo conta Cezar, em pedaços. “Eu recebi a notícia por volta de 6h30. Foi um primo dele que ligou, pois o telefone deste primo era o primeiro no celular do meu pai. Por coincidência ele passava pelo local quando recebeu a ligação e me avisou”, relembra o engenheiro.

Ao saber que o pai havia sofrido um acidente, Cezar pegou um táxi e foi até o local. Ao chegar e ver como estava o carro, imaginou que só um milagre salvaria seu pai e infelizmente isso não aconteceu.

“Não queria que minha família visse aquilo”

O acidente aconteceu na altura do Posto 8 em Ipanema, no Rio de Janeiro. O carro do aposentado foi atingido por outro veículo que vinha em alta velocidade. O motorista que provocou o acidente “derrubou dois coqueiros e passou literalmente sobre o carro de meu pai”.

Após a perícia, com liberação das autoridades presentes, Cezar resolveu ajudar a remover o corpo do pai. “Realmente foi uma cena bastante difícil para mim, mas pensei que precisava resolver porque não queria que minha família visse aquilo”, repetiu o engenheiro.

O rapaz que estava no outro carro foi socorrido pelos amigos. Segundo o filho da vítima, ele estava em uma pick-up blindada e teve escoriações leves. O jovem foi levado à delegacia onde ficou por cerca de uma hora prestando depoimento depois foi liberado.


Vida pelo avesso

“Aí nossa vida começou a virar, uma virada de 360º graus, para conseguir advogados, encaminhar tudo… Iniciamos uma verdadeira luta de Davi contra Golias e, infelizmente, ainda vivemos isso. É uma desigualdade muito grande”, relata. De acordo com Cezar, o rapaz que provocou o acidente “é de família abastada, o pai é dono de empresa de navios”, completou.

No dia do acidente, o responsável pela morte do aposentado não fez o teste do bafômetro. “Naquela época não era obrigado”, conta Cezar, mas “bombeiros e policiais nos falaram que ele estava notoriamente embriagado. Além disso, por meio do boleto da casa noturna que ele estava descobrimos que ele tinha ingerido oito chopes, energéticos e ‘caipivodkas’”, disse.

“Conseguimos, a partir de promotores, enquadrar como dolo eventual. Ele foi condenado a quatro anos e teria cumprir penas alternativas. Nós até sugerimos algumas coisas, por exemplo, que ele ficasse restrito todos os finais de semana a acompanhar os bombeiros em trabalhos de resgate, mas não pode, porque disseram que isso iria traumatiza-lo. Sugerimos também que ele fizesse trabalhos voluntários em uma associação que atende tetraplégicos, mas isso também não foi aceito”, contou Cezar.


Ações

Ainda segundo o engenheiro, “o máximo que ele teria que fazer seria trabalhar como office boy em uma instituição do governo. Isso para nós é um absurdo. Chega a degradar a profissão de office boy”. Mas nem a pena alternativa foi cumprida, os advogados do homem que causou o acidente entraram com diversos recursos e o caso segue sem solução.

A família da vítima também entrou com uma ação cível, por danos morais. O valor a ser pago para cada um dos filhos do aposentado seria de R$ 100 mil. Cezar e os irmãos ganharam a causa, mas não receberam. “Acharam que esse valor era um absurdo. Depois soubemos que ele pagou cerca de R$ 400 a R$ 500 mil para o advogado que o defende”, comentou o engenheiro.

Para tentar aplacar a dor, Cezar se associou à ONG Trânsito Amigo, liderada por Fernando Diniz. “Foi a maneira de tentar ajudar outras vítimas que tiveram que suportar essa dor. Tentar ajudar para que não fiquem com essa sensação de impunidade, impotência”, comenta.

Inversão

Mas Cezar afirma ainda que, depois da morte do pai, o que mais entristece sua família é a indiferença da família do rapaz que provocou o acidente. Em momento algum eles foram solidários com a família do aposentado.

“A indiferença deles dói demais na gente. Eles não se solidarizaram, pelo contrário, sentimos que existe uma tentativa de inversão de culpados. Como por exemplo quando o advogado deles chegou a perguntar o que o meu pai estava fazendo aquela hora no Arpoador”, conta Cezar, em um misto de revolta e desgosto.

Por morarem na mesma cidade, Cezar e a família sempre têm noticiais do homem que foi responsável pela morte de seu pai. “Esse mundo é pequeno. Temos conhecidos que também o conhecem. Ele anda normalmente, com a mesma vida. Conhecidos já o viram embriagado, dirigindo. A sensação que temos é de que a vida dele não mudou em nada…”

A dor

Cezar luta diariamente com a sensação de impunidade, enfrentando a “lentidão do judiciário, com recursos e mais recursos…”, continuamos bastante frustrados. Para ele, ainda é tudo muito doloroso.

“Fui eu que tirei meu pai aos pedaços do carro! Sou eu que convivo até hoje com essa imagem diariamente em minha cabeça! Serei eu a alentar sempre minha família ocultando os detalhes que levarei comigo para sempre. Serei eu que farei o possível e impossível para tentar educar, conscientizar e apoiar qualquer iniciativa que venha a coibir, inibir e acalentar todos os vitimados de transito diários”, relata o engenheiro.

“Difícil, difícil eu ter sido condenado a conviver com as imagens do meu pai dentro do carro. Minha pena pagarei até o fim dos meus dias.  Já a dele…”, completa, sem conseguir imaginar quando será o fim dessa história.

Fonte: Band

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