{"id":1311,"date":"2012-05-12T10:35:08","date_gmt":"2012-05-12T13:35:08","guid":{"rendered":"http:\/\/transitoamigo.com.br\/website\/?p=1311"},"modified":"2012-05-12T10:35:27","modified_gmt":"2012-05-12T13:35:27","slug":"aumenta-a-impunidade-para-crimes-de-transito-em-minas-gerais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/transitoamigo.com.br\/website\/aumenta-a-impunidade-para-crimes-de-transito-em-minas-gerais\/","title":{"rendered":"Aumenta a impunidade para crimes de tr\u00e2nsito em Minas Gerais"},"content":{"rendered":"<h5>\u00cdndice de julgamento de processos relativos a crimes de tr\u00e2nsito n\u00e3o chegou a 10% em 2011. Apesar de p\u00edfio, desempenho que revolta cidad\u00e3os foi 10 vezes superior ao de 2010<\/h5>\n<p>A sa\u00fade era perfeita, mas n\u00e3o suportou tantas noites sem dormir e a ansiedade da espera por justi\u00e7a. A press\u00e3o sangu\u00ednea disparou. Os pesadelos trouxeram um ranger de dentes t\u00e3o forte que provoca dores na mand\u00edbula durante o dia. Por isso, os rem\u00e9dios para press\u00e3o acompanham nos \u00faltimos tr\u00eas anos a dom\u00e9stica Andreia Aparecida Fernandes da Silva, de 45 anos, em suas idas ao F\u00f3rum Lafayette, em Belo Horizonte, onde segue o arrastar do processo criminal contra o m\u00e9dico acusado de atropelar e matar a m\u00e3e dela, embriagado, em setembro de 2009. Como Andreia, outras v\u00edtimas de crimes de tr\u00e2nsito amargam anos de espera, reflexo da morosidade do Judici\u00e1rio, que deixa livre quem abusa ao volante. De acordo com levantamento do Tribunal de Justi\u00e7a de Minas, dos 50.575 processos sobre crimes de tr\u00e2nsito ativos no ano passado, apenas 4.792 (9,5%) foram julgados.<\/p>\n<h6><strong>Uma chave na m\u00e3o e um peso na cabe\u00e7a<\/strong><\/h6>\n<p>O rosto do adolescente ainda \u00e9 infantil, t\u00edmido. As botas sujas do p\u00f3 branco de cal do trabalho novo carregando caminh\u00f5es revelam uma vida que parece ter mudado depois que ele causou um desastre em que morreram duas pessoas e tr\u00eas ficaram gravemente feridas. Contudo, na \u00faltima ter\u00e7a-feira, na porta de sua casa em um munic\u00edpio da Grande BH, o adolescente D., de 17 anos, acusado de se envolver em um acidente em outubro de 2011, ao conduzir, embriagado, uma van em que estavam mais sete pessoas, apareceu exibindo uma chave de autom\u00f3vel, na garagem de sua casa.<\/p>\n<p>Tentando esconder a chave em um papel, ele garantiu n\u00e3o continuar dirigindo inabilitado. O fato de estar livre, com acesso a outros autom\u00f3veis, como os que estavam na garagem da casa, e a lentid\u00e3o do inqu\u00e9rito do acidente, ainda emperrado na pol\u00edcia seis meses depois do epis\u00f3dio, s\u00f3 ampliam a sensa\u00e7\u00e3o de impunidade e a ang\u00fastia dos parentes dos mortos e feridos.<\/p>\n<p>Como n\u00e3o consegue que a pol\u00edcia e a Justi\u00e7a deem um desfecho para a morte da filha de 18 anos, a empres\u00e1ria Daniela Correia Santos, de 36 anos, tentou ficar frente a frente com o jovem, mas n\u00e3o conseguiu. Ela \u00e9 m\u00e3e de Bruna Danielle Santos, de 18 anos, uma das duas pessoas mortas na batida da van Ducatto com sete passageiros contra uma \u00e1rvore do canteiro central da MG-424, em 9 de outubro de 2011, em Vespasiano, na Grande BH. De acordo com a pol\u00edcia, o ve\u00edculo era conduzido por D., que estaria embriagado, retornando com os passageiros de uma festa. \u201cTentei olhar nos olhos dele e da m\u00e3e dele e saber se pelo menos me pediriam perd\u00e3o, porque nunca me procuraram\u201d, afirma.<\/p>\n<p>O acidente completou seis meses, mas o caso ainda est\u00e1 na fase de inqu\u00e9rito, per\u00edodo em que a pol\u00edcia junta elementos para embasar a den\u00fancia do Minist\u00e9rio P\u00fablico \u00e0 Justi\u00e7a. Segundo informa\u00e7\u00f5es da Delegacia de Vespasiano, onde o caso \u00e9 apurado, o inqu\u00e9rito chegou a ser despachado para um promotor, mas foi devolvido para que mais testemunhas sejam ouvidas. O laudo t\u00e9cnico com a mec\u00e2nica do acidente, que servir\u00e1 para informar a velocidade do ve\u00edculo e como o desastre ocorreu, tampouco est\u00e1 pronto, j\u00e1 que foram necess\u00e1rias corre\u00e7\u00f5es. No inqu\u00e9rito, a Pol\u00edcia Civil indica crimes de homic\u00eddio doloso e les\u00e3o corporal cometidos pelo dono da van e o motorista que a usava e que a teria emprestado ao adolescente.<\/p>\n<p>De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o e os relatos das testemunhas \u2013 entre elas alguns dos acidentados \u2013, o adolescente estava dirigindo a van e teria se virado para tr\u00e1s e beijado a namorada. Quando voltou-se para frente, perdeu o controle do ve\u00edculo, e, antes de bater contra uma \u00e1rvore, teria conseguido saltar para se salvar. A comerciante Daniela Correia conta que s\u00f3 foi procurada uma vez pela pol\u00edcia. \u201cSinto um descaso enorme por parte das autoridades. Parece que estamos desamparados. Minha filha morreu e isso n\u00e3o importa a ningu\u00e9m\u201d, desabafa.<\/p>\n<p>Toda vez que observa o filho de 19 anos em estado vegetativo sobre a cama, no quarto onde o via alegre, a dona de casa Karina Aparecida Castanheira, de 36 anos, sente arrepios e um aperto no est\u00f4mago. F\u00e1bio Henrique Castanheira era um dos passageiros da van. Sofreu traumatismo craniano e teve perda encef\u00e1lica. Aparentemente n\u00e3o responde a est\u00edmulos, mas a fam\u00edlia n\u00e3o desiste de tentar que ele volte a se comunicar, pagando duas fisioterapeutas e uma nutricionista para tratar do ca\u00e7ula de dois filhos. \u201cS\u00f3 quero o bem dele. S\u00f3 penso nisso. Perdoo o motorista da van, que era amigo dele e veio visit\u00e1-lo. Se ele vai pagar alguma coisa ser\u00e1 para Deus e n\u00e3o para mim. Mas incomoda ver que a Justi\u00e7a que as outras fam\u00edlias querem n\u00e3o sai\u201d, considera Karina.<\/p>\n<p>O advogado do adolescente, Andr\u00e9 Gustavo Braga Santos, sabe que o cliente n\u00e3o ser\u00e1 julgado por homic\u00eddio e a les\u00e3o corporal, por ter menos de 18 anos. Ao analisar a investiga\u00e7\u00e3o, ele considera que os depoimentos foram muito vagos e que nenhuma testemunha identificou seu cliente como sendo o motorista da van. Quanto \u00e0 chave de autom\u00f3vel na m\u00e3o do menor, o defensor diz n\u00e3o ser ind\u00edcio de que o cliente continue dirigindo inabilitado, ainda que mostre que ele tem acesso f\u00e1cil aos dois ve\u00edculos da casa. \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhuma rela\u00e7\u00e3o. Ele poderia muito bem estar indo buscar algo dentro do carro. No caso da van, h\u00e1 quem diga que outra pessoa \u00e9 que estava conduzindo o ve\u00edculo, mas n\u00e3o posso dizer ainda quem \u00e9 esse suspeito, para n\u00e3o atrapalhar as investiga\u00e7\u00f5es\u201d, disse.<\/p>\n<h6><strong>CONDENA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/h6>\n<p>Balan\u00e7a desequilibrada<\/p>\n<p>Condena\u00e7\u00e3o por crimes de tr\u00e2nsito nas comarcas de Minas<\/p>\n<p>\u00bb Analisando os \u00edndices de julgamento de processos em Minas em 2010, quando apenas 459 processos tiveram decis\u00e3o, a ju\u00edza Maria Isabel Fleck, da 1\u00aa Vara Criminal do F\u00f3rum Lafayette, apostou que em 2011 haveria uma melhora, devido \u00e0 instala\u00e7\u00e3o de mais juizados especiais para desafogar a Justi\u00e7a comum. A despeito de a melhora n\u00e3o ser suficiente para impedir que os processos se acumulem, ela afirma que 90% dos casos de crimes de tr\u00e2nsito chegam a condena\u00e7\u00e3o, ainda que isso demore.<\/p>\n<p>295 &#8211;\u00a0\u00e9 o total de comarcas mineiras<\/p>\n<p>17 (5,8%) &#8211;\u00a0n\u00e3o julgaram e condenaram nenhum infrator<\/p>\n<p>164 (55,6%) &#8211;\u00a0julgaram menos de 10% dos processos<\/p>\n<p>7 (2,4%) &#8211;\u00a0conseguiram julgar mais de 50% dos processos<\/p>\n<p>\u00bb Pirapora (Norte de Minas) \u00e9 a comarca com menor resolu\u00e7\u00e3o de processos. Nenhum dos 208 abertos no ano passado teve desfecho<\/p>\n<p>\u00bb Dores do Indai\u00e1 (Centro-Oeste) \u00e9 a campe\u00e3 em resolu\u00e7\u00e3o de processos da Lei Seca, com 86% de julgamentos. Dos 43 abertos, 37 foram julgados<\/p>\n<h6><strong>BH tem \u00edndices mais baixo que o Estadual<\/strong><span style=\"font-weight: normal;\"> <\/span><\/h6>\n<p>Se o \u00edndice de julgamento de processos \u00e9 baixo no estado, onde apenas 9,5% das 50.575 a\u00e7\u00f5es sobre crimes de tr\u00e2nsito ativas no ano passado tiveram decis\u00e3o, em Belo Horizonte essa propor\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda menor. Na capital, dos 5.577 procedimentos que tramitaram em 2011, apenas 324 (5,8%) tiveram conclus\u00e3o. Na fila est\u00e3o milhares de casos como o da dom\u00e9stica Andreia Aparecida Fernandes da Silva. A m\u00e3e dela, a cozinheira Luzia Rodrigues Fernandes, de 65 anos, foi atropelada pelo m\u00e9dico Fellipe Ferreira Valle, em setembro de 2011, aos 31 anos, enquanto ele tentava fugir da pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Policiais informaram que o condutor apresentava sintomas de embriaguez ao ser abordado por uma equipe de tr\u00e2nsito da PM, na Pra\u00e7a Raul Soares, Regi\u00e3o Centro-Sul. O m\u00e9dico sa\u00eda de uma boate por volta das 7h30 e havia deixado seu carro, um Polo, estacionado em local proibido. Ele fingiu que ia pegar os documentos no carro e fugiu em alta velocidade, atropelando um policial.<\/p>\n<p>Houve persegui\u00e7\u00e3o por seis quil\u00f4metros, nos quais Fellipe \u00e9 acusado de avan\u00e7ar quatro sinais vermelhos, andar nove quarteir\u00f5es na contram\u00e3o e subir no passeio, onde atropelou e matou a cozinheira, que voltava da padaria. Tamb\u00e9m atingiu um \u00f4nibus, um carro da BHTrans e, ao passar por um cruzamento do Bairro Prado, bateu num Siena ocupado pelo tenente-coronel Wellington Limeira, sua mulher e o filho, ent\u00e3o com 17 anos, que ficaram feridos.<\/p>\n<p>De acordo com o advogado de Fellipe Ferreira Valle, Jos\u00e9 Arthur Kalil, o m\u00e9dico \u00e9 um \u201cprofissional muito s\u00e9rio e atarefado\u201d, que ainda mora em Belo Horizonte e prefere aguardar para saber se o seu processo ser\u00e1 julgado como homic\u00eddio culposo, nas varas criminais, ou como doloso, no tribunal do j\u00fari. Ele n\u00e3o quis falar com a reportagem e nomeou o advogado como porta-voz.<\/p>\n<h6><strong>ENTREVISTA<\/strong><span style=\"font-weight: normal;\"> <\/span><\/h6>\n<p>D., 17 anos &#8211; Adolescente acusado de ter conduzido embriagado van com sete passageiros em acidente com dois mortos<\/p>\n<p>\u201cSinto como se n\u00e3o valesse nada\u201d<\/p>\n<p>Com a chave de um autom\u00f3vel na m\u00e3o, aparentemente tentando escond\u00ea-la num papel enquanto entrava na garagem de casa, o jovem suspeito de provocar a morte de duas pessoas e de deixar tr\u00eas feridos graves no acidente com uma van na MG-424, em Vespasiano, em outubro de 2009, contou com exclusividade ao Estado de Minas o que disse lembrar do desastre. Afirmou n\u00e3o recordar o momento exato da batida, se deu mesmo um beijo na namorada, que perdeu um bra\u00e7o, ou de ter saltado para se salvar, mas relatou ter perdido o pai aos 13 anos e contou como sua vida mudou.<\/p>\n<p>Voc\u00ea se lembra de como foi o acidente e por que ele aconteceu?<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos voltando de uma festa num s\u00edtio. Os passageiros que peguei estavam na festa e fui deixando uns em Venda Nova e depois o resto ia descer aqui na cidade. N\u00e3o me lembro da batida. Apagou da minha mem\u00f3ria. A \u00faltima coisa que lembro foi de ter deixado as \u00faltimas pessoas perto do Hospital Risoleta Neves e depois quando fui tratado no hospital.<\/p>\n<p>Quem lhe deu as chaves do carro e por que voc\u00ea resolveu dirigir sem carteira e bebendo?<\/p>\n<p>Prefiro n\u00e3o falar sobre isso. N\u00e3o quero atrapalhar o que o advogado est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p>E quando voc\u00ea pensa sobre esse acidente grave, o que sente?<\/p>\n<p>Quando lembro, sinto uma sensa\u00e7\u00e3o ruim. A pior da minha vida. Sinto como se n\u00e3o valesse nada quando me procuram para saber daquilo. \u00c9 muita tristeza. Perdi amigos e outros ficaram machucados.<\/p>\n<p>Como foi para voc\u00ea depois do acidente, com as outras pessoas?<\/p>\n<p>Tive de ficar uns tempos fora de casa por causa disso, do que as pessoas poderiam fazer comigo. Na \u00e9poca, estava fazendo um curso de mec\u00e2nica industrial e parei. Muita gente estava em cima, me perguntando. Mas agora voltei ao curso e vou me formar na metade do ano que vem. Trabalho de dia para meu tio carregando um caminh\u00e3o e depois estudo.<\/p>\n<p>O que voc\u00ea diria aos familiares de quem morreu ou ficou ferido?<\/p>\n<p>Minha fam\u00edlia j\u00e1 procurou os outros que estavam no acidente. Eu mesmo n\u00e3o fui, porque a gente n\u00e3o sabe como iam reagir comigo. Fui ver o Binho (F\u00e1bio Castanheiras, rapaz em estado vegetativo), que est\u00e1 de cama na casa dele. N\u00e3o sei o que falar para eles, n\u00e3o. Prefiro nem procurar ningu\u00e9m. Sei como \u00e9 isso para a fam\u00edlia, porque perdi meu pai aos 13 anos. Quem sabe assim eles conseguem esquecer isso tudo?<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Fonte: <a href=\"http:\/\/www.em.com.br\/app\/noticia\/gerais\/2012\/04\/22\/interna_gerais,290234\/aumenta-a-impunidade-para-crimes-de-transito-em-minas-gerais.shtml\">Jornal Estrado de Minas<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00cdndice de julgamento de processos relativos a crimes de tr\u00e2nsito n\u00e3o chegou a 10% em 2011. Apesar de p\u00edfio, desempenho que revolta cidad\u00e3os foi 10 vezes superior ao de 2010 A sa\u00fade era perfeita, mas n\u00e3o suportou tantas noites sem dormir e a ansiedade da espera por justi\u00e7a. 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